2010/06/15
2010/05/04
De súbito
De repente um sentimento de despertencer, como se um barco que se desvencilha da âncora, como se uma pétala que explode do broto, como se a asa do filhote que se abre, como se a gota que cai da ponta da folha, como se o velho que se livra da bengala, como se a lágrima que se despede dos olhos... de repente esse sentir-se ímpar, sem saber como, o quê ou para onde, como se uma voz que chamasse pelo meu nome ecoasse distante, num clarão que já não cabe e rompe as frestas do coração e da alma, que só querem sentir-se completos.
2010/04/05
Duas solidões
Duas solidões são passantes que se entreolham, mas não se vêem exatamente nos olhos do outro. Vêem vultos, rabiscos, mas não a si. Mas, mesmo assim, sorriem, querendo transmitir o sorriso que pertence à outra pessoa. E eles sabem disso.
Duas solidões andam de mãos entrelaçadas, mas a mão é fria, o coração é distante. Mas, mesmo assim, trocam palavras bonitas, ainda que essas palavras tenham um destinatário, no fundo do peito, diferente.
Duas solidões brincam, mas a brincadeira, na realidade, não tem graça.
Duas solidões dizem palavras tocantes, e se forçam a acreditar nelas, mesmo sabendo que aquilo não o toca da mesma forma que tocaria se fosse dito por aquele ao qual pertencem realmente. E eles também sabem disso.
Elas se enganam... Duas solidões que insistem em se encontrar, em estar perto, mas só fazem é se afastar, e se perder de si.
E existem tantas solidões por aí, insistindo inutilmente em ser felicidade... não é?
Eu desejo que você nunca encontre a sua solidão gêmea ou muito parecida, como eu já encontrei e convivi. Que você nunca permita se enganar desse modo. Que realmente espere por quem ama. Afinal, ser solidão é acabar como aquele pássaro que, preso na gaiola há tanto tempo, e já acostumado a viver assim, desaprendeu a cantar. E eu não quero nunca que você desaprenda a amar.
Nunca.
2010/03/25
O fim do dia
Policarpo - Segredos (olhares.com)
O dia me cansa. As perguntas continuam pairando no ar. As certezas são escassas. Farta-me a indiferença das pessoas, a falta de sentimento. O tempo vai engolindo as horas como quem não se ressente de permitir um pouco mais de cor. É difícil lidar com a vida.
Resolvo voltar para casa, tomar um banho e, antes de lembrar do dia de amanhã, recolho-me a pensar em ti. É que quero um momento de paz, e, pensar num passado que reincide nessas horas que restam, solitárias, traz alento. Os nossos quase-eternos momentos. Às vezes quase não me lembro de muitos detalhes, ou não me esforço para tal. Basta-me lembrar da tua mão sobre a minha, do nosso silêncio, da minha não-solidão...
E, pensando que estás descansando, ou lendo, ou quem sabe vivendo também dessa forma... ou ainda que não estejas fazendo nada disso, eu, na ânsia por ti, desejo tomar carona nesse vento que sopra anunciando chuva, e, secretamente calada, sorrateiramente tua e instantaneamente feliz, ir até onde estás e dar um beijo em cada um dos teus olhos.
2010/02/20
A solidão da palavra
2009/12/31
2009/10/31
2009/09/11
2009/05/30
Entre o coração e eu
Rafael Almeida - Onde o mar começa e a terra acaba (olhares.com)2009/04/24
O mar e as pegadas
2009/03/28
O mar e as palavras
2009/02/27
Sorrisos
Silvia Roman - Red - olhares.comEm algum momento de um caminho difícil, a vida sorri. E ela o faz quando menos se espera, quando estamos talvez focados em tantos outros objetivos, que esquecemos de parar um pouco e olhá-la. E, ao permitir fazê-lo, ainda que com lágrimas nos olhos pelas feridas que o tempo causou, ela ainda sim sorri, querendo estar perto, junto, como lua cheia que, completa, deseja saciar-nos. E, mesmo que não devolvamos essa pureza, ela continua a acreditar: dentro de nós existem ainda aqueles mesmos olhos largos que, quando gargalham, miúdos ficam. Aqueles mesmos dentes escondidos que, quando se mostram, colorem tudo em volta. A vida acredita sim, ainda que não percebamos, em meio a confusões de sentimentos e lutas...
E quando a gente se permite contemplar, sem graça e encantados, essa ternura singela de seu sorriso largo, chegamos até a esquecer, por um átimo de tempo, de tudo o que um dia já doeu.
2009/01/22
Sobre o Seguir
Depois que a gente resolve simplesmente seguir a despeito do que nos causaram, ou do que causamos a nós mesmos quando afogamos nossos sonhos e esperanças naquele lamaçal de solidão ou de mágoa por algo que não se esperava, ficamos à mercê de tanta coisa... Depois então de sonhar, e acordar, e nada ter mudado, e sonhar de novo, até se sentir cansado e não querer mais sonhar, ficamos apáticos, anestesiados, emudecidos diante do mundo. Nada disso deve terminar assim, bem sabemos, mas, mesmo depois de se enxugar lágrimas, surpreender-se com a vontade de sonhar um novo sonho, diferente, mágico, único, re-ver algumas coisas de forma diferente, desejar ser maior, mudar, amadurecer, fica sempre uma pergunta latejando na mente, na alma, no coração: será que a vida esqueceu do que eu espero dela?
Tomara que não.
2009/01/11
|Momentos|
Existem momentos em que deveríamos calar as vozes de fora, de dentro, e permitir que apenas o coração se comunique, ainda que ele escolha silenciar. Esses são presságios de tempo que por si só bastam. Bastam-se. Se bastam. A si.
E eu fico tentando tocá-los, possuí-los, como se entre nós não houvessem mais fronteiras, mais todas essas limitações de amplidão e prenúncios de algo escondido, como um sorriso ou uma lágrima fugidia... Mas ele escolhe não silenciar, mais uma vez. Prefere permanecer nessa arritmia de oras gritar, oras balbuciar, oras sorrir ou oras simplesmente se esquecer de mim. De nós...
Mas eu vivo cada um desses momentos, e sorrio a cada movimento que brota do peito, porque sei que esse é o tempo eterno que dura o suficiente para não se perder em mim. E se fixa na tênue linha da paixão e do medo, para depois esmaecer de mim, como o breve instante de um suspiro ainda inacabado de saudade.
2008/12/30
[colheita]
Miguel Santos - S/T - olhares.com2008/12/17
Luiza Possi
Desconheço autoriapode ser
que alguém
veja em meus olhos
o que eu não posso ver
além do arco-íris
só eu sei
que o amor
poderá me dar tudo que eu sonhei
um dia a estrela vai brilhar
e o sonho vai virar realidade
e leve o tempo que levar
eu sei que eu encontrarei a felicidade
além do arco-íris
um lugar
que eu guardo em segredo
que só eu sei chegar...''
Além Do Arco-íris
Luiza Possi
Composição: Harold Arlen
2008/12/04
O teu amor foi embora
Ariovaldo Molina Vidotto - O botão da Adália - olhares.comO teu amor foi embora e eu procuro me conformar com isso enquanto o tempo esfrega na minha cara cada uma das tuas mais bonitas mentiras, cada uma das tuas palavras e promessas não cumpridas. Ele joga na minha cara a saudade que sinto, o desejo não realizado, a mão que não segura a minha, o sentimento que talvez nunca tenha existido. Mentira, existiu sim. Mas, enquanto o tempo tenta me convencer do nunca, do não, do improvável, eu sigo e vou me lembrando de um passado não tão longínquo, do quanto a vida era mais simples, do meu sorriso mais aberto, de tudo aquilo que eu pude me transformar para ser hoje. O tempo joga na cara, o corpo não agüenta e uma lágrima cai, mas daí vem a mão (essa mesma que tu não seguraste) e seca, vem o pensamento e me leva a um outro lugar, vem a lembrança de um tempo bom e tudo isso se rende e silencia. Porque a vida, o amor e o desejo de felicidade acima de algo não concretizado, o desejo pelo melhor da vida, isso sim me liberta de nós.
2008/11/22
Sobre a dor
2008/11/12
Nothing but this
E eu quero continuar pensando que a despeito de tudo, do que aconteceu ou deixou de acontecer, dos erros, acertos, tropeços, mudanças, medos, eu ainda mereço o melhor amor do mundo!
Porque muitas vezes a gente pensa o contrário e quer se convencer de que não é bem assim.
Mas é assim sim.
2008/10/27
Desertar-Se
Desertar-se e não ser um deserto, afinal, ninguém o é, porque ficam as atitudes cravadas na mente e as palavras tatuadas na alma. Temos sim um tanto de pegadas...
Digo deserto porque talvez seja apenas nele, no vazio, sem empecilhos, limites, apenas nós e nós mesmos, é que a vida pode trazer uma nova chuva, regar o broto de um novo sonho e, enfim, encontrar alguma possibilidade para re-começar.





